sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Cartas que eu não enviei - O que eu queria te dizer na nossa última conversa

O que eu queria te dizer na nossa última conversa

Não posso mais dizer que não tenho notícias de você. Eu tenho, são boas.  Você está prestes a se formar, pirado com as últimas instâncias da faculdade. Eu te dei algumas notícias sobre mim também. Os progressos na faculdade, os desenhos, a exposição na cidade que compartilhamos.

Era o que você esperava saber. Era o que eu esperava saber. Sabia que daríamos apenas notícias, manchetes um ano atrasadas – do contrário teríamos que falar de nós dois. Mas eu queria falar de mim para você, não apenas um egoísmo vago que meu lado setecentista pede, eu queria te apresentar a minha vida nova.

Eu tenho me cuidado, T. Cuidado da minha vida, do meu corpo, da minha alma. Tenho cuidado do meu apartamento, dos meus cactos. Tenho cuidado do meu trabalho e dos meus compromissos. Estou tentando cuidar das minhas bagunças também, mas sem algumas delas eu não existo. Eu ainda posso me lembrar de ouvir você dizendo para que eu me cuidasse na última vez em que nos vimos, há mais de um ano.

Queria te contar das evoluções dentro de mim. É tão linda e abstrata essa metamorfose adulta. Na maior parte do tempo, fingimos que ela simplesmente não acontece, que do dia para a noite, torna-se adulto e responsável, e ignoramos esse organismo vivo que nos acompanha nos altos e baixos.

Eu não mudei de poetas ou designers favoritos. Ainda tenho essa imaginação de criança e provavelmente viverei no mundo da lua para sempre. Mas ainda assim há uma mudança perceptível, quase palpável. Não falo dos anos, T. Falo das experiências.

Queria que você tivesse ficado por tempo suficiente para conhecer meu apartamento. Ele é uma extensão de mim. Às vezes, é através dele que me lembro de quem eu sou, por dentro e por fora. Eu sempre sonhei em ter um ateliê, hoje em dia ele é sempre bagunçado e sujo de tinta, mas cada respingo é perfeito.

Passei a tomar chá quente, descobri recentemente o quanto aquece a alma. Voltei a ler. Voltei a escrever. Voltei a ilustrar. Estou explodindo de ideias e sonhos. Mas tenho os pés no chão mais do que nunca. Tenho contas para pagar, um apartamento para administrar. Eu estou encontrando, devagar, um equilíbrio entre a realidade dura e cruel e o nirvana dos sonhos. Talvez o segredo seja manter os pés no chão e a cabeça nas nuvens. Estou aprendendo, T.

Eu estou completa. Estou me completando, crescendo e aprendendo a cada dia, vivendo um dia de cada vez. Aprendi, na marra, a gostar da minha própria companhia. Gosto de me levar pra passear, de me fazer um almoço, de me presentear, de me levar ao cinema. Está sendo um desafio pessoal bem cumprido desfrutar somente de mim mesma.

Eu não queria te contar tudo isso para dizer que não preciso mais de você. Aprendi, nesses quase dois anos de exílio voluntário, que só precisamos realmente de nós mesmos e algo em que acreditar. Estar com alguém é escolha, é a forma mais pura de demonstrar liberdade. Queria te dizer que eu estou indo, estou caminhando. Queria te contar tudo isso para que você continuasse a me conhecer. Queria te apresentar esse pedaço inédito de mim.

Esse pedaço que firma quando a vida aperta e ri quando a vida afrouxa.

Pessoalmente, você teria visto tudo isso em meus olhos. E eu deixaria que você me encarasse até que assimilasse tudo que era novo; o gosto pelo seu olhar não mudou.

Com amor, sempre,
L.

domingo, 1 de maio de 2016

Cartas que eu não enviei - Bittersweet

Bittersweet -  a carta que é mais de amor do que de despedida

Eu não sei como começar uma carta de despedida para você. Talvez eu nunca saiba. Isso, porém, já era esperado. Eu reluto esta escrita há quase um ano, torcendo, rezando para que não precisasse, para que, no fim das contas, eu estivesse mesmo certa – como minha intuição tinha me dito.

Eu realmente achei que fosse você. Também não sei dizer os motivos, só – achava que – sabia. Era tão absurdamente natural e familiar estar ao seu lado que parecia não ter como ser errado. Mas foi, de alguma forma, errado para você.

E eu ainda não quero escrever esta carta – embora precise. Ainda assim, quero fingir que não preciso.

Você escapou pelos meus dedos e eu não percebi. Isso dificulta tudo. Todas as outras vezes em que eu precisei escrever cartas – nunca entregues – de despedida era movida por uma briga, um adeus genuíno, uma promessa esquecida.

De você, não tive nada. Você usou meus mistérios a seu favor e escapou à francesa no meu melhor estilo. Talvez seja simplesmente a vida me devolvendo o que eu costumava fazer. Eu sempre fui boa em desaparecer; nos meus casos, era sempre depois de um término. O nosso término, entretanto, foi a sua escapada.

Dizer que eu nunca mais ouvi de você seria mentira. Eu soube, coisas esparsas, durante pouco tempo depois que você desapareceu. Você foi embora sem nunca dar adeus, você não me escolheu, não tentou e ainda assim não foram as piores coisas que você podia fazer comigo – na época, acreditei que fossem.

Mesmo me trocando pela sua atual, e ironicamente parecida comigo, garota, a pior coisa que você podia ter feito a mim era se excluir totalmente da minha vida, sumir como se você nunca tivesse estado por aqui, como se não tivesse cantado Something para mim e como se nosso pequeno conto agridoce nunca tivesse existido.

A pior coisa que você fez a mim foi desaparecer.

Eu gostava de ter esse pouco acesso a você, me perdoe. Pode ser uma frase batida, mas precisava saber se você estava bem – mesmo que bem longe de mim. Queria entender. Queria que você tivesse me dado adeus e um beijo de despedida sobre o qual eu pudesse escrever.

Mas você não me deu. Nem um beijo de despedida nem uma daquelas polaroids que tiramos num dia calmo e distante. Eu me pergunto se você as jogou fora; a afirmativa é repetida na minha mente, mesmo sabendo que eu as guardaria talvez para sempre.

Eu quis acreditar que o que nos unia era maior que tudo, um daqueles laços invisíveis do universo que insistem em ligar duas pessoas. Que você voltaria. Que nos encontraríamos de novo.

Cá estou eu, todavia, tentando escrever uma carta de despedida onde não houve adeus. Nem esse luxo você me deu. Gostaria de escrever sobre um adeus, porém escrevo agora sobre mistério e possibilidades.

Queria que aquele texto que escrevi sobre seu futuro – antes mesmo de amar você – acabasse sendo o meu maior engano. Que sua noiva perfeita com alianças de diamantes e paredes brancas não existissem. Acho que meu pior engano foi acreditar em nós.

Infelizmente.

Infelizmente, de todo meu coração.

Existe uma coisa, entretanto, que você não pode tirar de mim. Essa sua linda tatuagem no pulso esquerdo indicando o Norte. Você a fez bem jovem, quando nem sonhava em me conhecer; fez numa viagem a esta linda e pacífica ilha do Atlântico Sul – onde eu agora moro e a responsável geograficamente pela nossa separação.

Você vai olhá-la e se lembrar de mim.

Mesmo se sua noiva impecável se concretizar.

Gosto de pensar que acabei sendo seu true North. E gosto de pensar que é para lá que as pessoas acabam sempre voltando.

-Com amor, sempre, L.


quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Sentimento em preto e branco

SENTIMENTO EM PRETO E BRANCO
A meu secreto amado, Álvares de Azevedo
Como Adélia escrevo,
bilhete em papel roxo.
Não me agrada o rosa.

Loucuras não fiz por ti,
Manuel dos meus sonhos.
Persegue-me com esses olhos
Olhos de tão profundos, líricos.

Aos treze caí sem volta
Envolta em doces versos,
ó Manuel dos traços firmes

Manuel, Manuel

Teria sido sua musa
Deusa imaculada a teus olhos
A mulher que nunca possuístes

Serei a partir de agora
a Laura tua, Manuel
Não precisas mais sonhar
Com a Laura de Petrarca

Nua, dormindo, sonhando, tua
Tua, Manuel
Enche-me o vazio de saber
Que ao lado teu nunca estarei

Entre verso e prosa, perco-me
Entre o arcadismo e o romantismo teu.
Tantas são as escolas que me separam de ti!

Manuel, doce Manuel
Que nas vindas e idas da prosa,
Nos encontremos na poesia.

*** parafraseando Adélia Prado em "Bilhete em papel rosa"

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Devaneios - Sobre poetas favoritos


-Devaneios
Sobre poetas favoritos

Na triste semana que levou Rubem Alves – acompanhando João Ubaldo Ribeiro e sendo acompanhado por Ariano Suassuna – me pus a perguntar o que o levara escolher, entre tantos e tantos poetas e poemas, os de Cecília Meireles e Fernando Pessoa para seu próprio discurso fúnebre. O que havia, afinal, neles que não havia em Drummond? Ou nas dezenas de milhares de outros?

Escolha, no meu ponto de vista, sempre significou a não escolha, tanto em grandes momentos que mudam o curso das vidas para sempre quanto nos mais singelos deles. Escolher um comprar um par de sapatos é escolher não comprar todos os outros. Escolher comer em um restaurante é deixar de comer em outros. Duas singelas situações.

Mas e quanto ao casamento? E aos poetas? Casar com alguém é deixar para trás qualquer outro pretendente; é deixar de escolher muitos que a vida, futuramente, oferecerá. Escolher um, ou mesmo mais de um, poeta ou poema favorito também.

A resposta veio num dia de inverno qualquer, em forma de um livro que mistura a poesia em sua forma conhecida à poesia concreta. Há muito o cobiçava, mas ele ficara – até aquele momento – abrigado confortavelmente no rastro de livros não escolhidos que deixei ao longo do caminho.

Era uma coisa muito simples, na verdade. Mais sentimento e menos respostas. Nós não escolhemos os poetas que perpetuarão dentro de nós. Eles nos acham, nos escolhem e nos encantam, mesmo que tenham que habitar o hall dos não escolhidos por certo tempo.

Não é simplesmente identificação com o poeta. Para ser elevado a tal nível de magnitude, é necessário muito mais. Amo muitos poemas vindos de diferentes poetas. Me identifico. Vejo traços de minha personalidade, da minha vida até aqui e dos meus desejos para o futuro.

Não basta, porém. Ao folhear o livro e sentir o gostinho que cada poema derramava, a alegria foi imediata. Eles tratavam de coisas diferentes. Amores, lua, arte. Às vezes, era o tema que me encantava; às vezes apenas a rima, a sonoridade; outras vezes, entretanto, me ganhavam simplesmente pela disposição das palavras. Derramava, afinal, o que estava profundamente escondido dentro de mim. Chegavam a um lugar inexplorado.

Inexplicável.


As rimas de Leminski eram a música suave de que meus olhos precisavam para acalorar o frio das madrugadas e aceitar a inexplicabilidade dos poetas prediletos. Considero-me, agora, apta a aceitar as escolhas de Rubem; compreende-las, porém, coube apenas a ele. 

quarta-feira, 5 de março de 2014

This bird you cannot change

-Dispensa legendas.

"I would kiss a hundred frogs if I could marry a prince and be a princess"

Quase um ano atrás esse desenho foi feito com muito amor para minha amiga Gabi Chinelatto no aniversário de dezesseis anos dela. A Charlotte Labouf é totalmente minha personagem preferida d'A Princesa e o sapo (aquela animação da Disney) e a Gabi é a Charlotte por completo.

Ainda por cima, a Gabi é uma princesa com uma história de amor de dar inveja em qualquer um; não que eu tenha dito isto à ela alguma vez, mas ela vive um romance de conto de fadas. Será que beijou um sapo? hahaha just kidding.


And forever on it goes...

Este foi feito especialmente para o casamento do meu daddy, Andão (meu motociclista preferido!) ano passado... Ele estampou convites, lembrancinhas, bolo e painéis com muito orgulho. Casamento de motociclista rockeiro é assim. Pena que a noiva ainda não tinha decidido o vestido, que acabou sendo um corpete cor de rosa; teria ficado mais legal hihi.