
-Devaneios
Sobre poetas favoritos
Na triste semana que levou Rubem
Alves – acompanhando João Ubaldo Ribeiro e sendo acompanhado por Ariano
Suassuna – me pus a perguntar o que o levara escolher, entre tantos e tantos
poetas e poemas, os de Cecília Meireles e Fernando Pessoa para seu próprio
discurso fúnebre. O que havia, afinal, neles que não havia em Drummond? Ou nas
dezenas de milhares de outros?
Escolha, no meu ponto de vista,
sempre significou a não escolha, tanto em grandes momentos que mudam o curso
das vidas para sempre quanto nos mais singelos deles. Escolher um comprar um
par de sapatos é escolher não comprar todos os outros. Escolher comer em um
restaurante é deixar de comer em outros. Duas singelas situações.
Mas e quanto ao casamento? E aos
poetas? Casar com alguém é deixar para trás qualquer outro pretendente; é
deixar de escolher muitos que a vida, futuramente, oferecerá. Escolher um, ou
mesmo mais de um, poeta ou poema favorito também.
A resposta veio num dia de
inverno qualquer, em forma de um livro que mistura a poesia em sua forma
conhecida à poesia concreta. Há muito o cobiçava, mas ele ficara – até aquele
momento – abrigado confortavelmente no rastro de livros não escolhidos que
deixei ao longo do caminho.
Era uma coisa muito simples, na
verdade. Mais sentimento e menos respostas. Nós não escolhemos os poetas que
perpetuarão dentro de nós. Eles nos acham, nos escolhem e nos encantam, mesmo
que tenham que habitar o hall dos não
escolhidos por certo tempo.
Não é simplesmente identificação
com o poeta. Para ser elevado a tal nível de magnitude, é necessário muito
mais. Amo muitos poemas vindos de diferentes poetas. Me identifico. Vejo traços
de minha personalidade, da minha vida até aqui e dos meus desejos para o
futuro.
Não basta, porém. Ao folhear o
livro e sentir o gostinho que cada poema derramava, a alegria foi imediata.
Eles tratavam de coisas diferentes. Amores, lua, arte. Às vezes, era o tema que
me encantava; às vezes apenas a rima, a sonoridade; outras vezes, entretanto,
me ganhavam simplesmente pela disposição das palavras. Derramava, afinal, o que
estava profundamente escondido dentro de mim. Chegavam a um lugar inexplorado.
Inexplicável.
As rimas de Leminski eram a
música suave de que meus olhos precisavam para acalorar o frio das madrugadas e
aceitar a inexplicabilidade dos poetas prediletos. Considero-me, agora, apta a
aceitar as escolhas de Rubem; compreende-las, porém, coube apenas a ele.
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