sexta-feira, 25 de julho de 2014

Devaneios - Sobre poetas favoritos


-Devaneios
Sobre poetas favoritos

Na triste semana que levou Rubem Alves – acompanhando João Ubaldo Ribeiro e sendo acompanhado por Ariano Suassuna – me pus a perguntar o que o levara escolher, entre tantos e tantos poetas e poemas, os de Cecília Meireles e Fernando Pessoa para seu próprio discurso fúnebre. O que havia, afinal, neles que não havia em Drummond? Ou nas dezenas de milhares de outros?

Escolha, no meu ponto de vista, sempre significou a não escolha, tanto em grandes momentos que mudam o curso das vidas para sempre quanto nos mais singelos deles. Escolher um comprar um par de sapatos é escolher não comprar todos os outros. Escolher comer em um restaurante é deixar de comer em outros. Duas singelas situações.

Mas e quanto ao casamento? E aos poetas? Casar com alguém é deixar para trás qualquer outro pretendente; é deixar de escolher muitos que a vida, futuramente, oferecerá. Escolher um, ou mesmo mais de um, poeta ou poema favorito também.

A resposta veio num dia de inverno qualquer, em forma de um livro que mistura a poesia em sua forma conhecida à poesia concreta. Há muito o cobiçava, mas ele ficara – até aquele momento – abrigado confortavelmente no rastro de livros não escolhidos que deixei ao longo do caminho.

Era uma coisa muito simples, na verdade. Mais sentimento e menos respostas. Nós não escolhemos os poetas que perpetuarão dentro de nós. Eles nos acham, nos escolhem e nos encantam, mesmo que tenham que habitar o hall dos não escolhidos por certo tempo.

Não é simplesmente identificação com o poeta. Para ser elevado a tal nível de magnitude, é necessário muito mais. Amo muitos poemas vindos de diferentes poetas. Me identifico. Vejo traços de minha personalidade, da minha vida até aqui e dos meus desejos para o futuro.

Não basta, porém. Ao folhear o livro e sentir o gostinho que cada poema derramava, a alegria foi imediata. Eles tratavam de coisas diferentes. Amores, lua, arte. Às vezes, era o tema que me encantava; às vezes apenas a rima, a sonoridade; outras vezes, entretanto, me ganhavam simplesmente pela disposição das palavras. Derramava, afinal, o que estava profundamente escondido dentro de mim. Chegavam a um lugar inexplorado.

Inexplicável.


As rimas de Leminski eram a música suave de que meus olhos precisavam para acalorar o frio das madrugadas e aceitar a inexplicabilidade dos poetas prediletos. Considero-me, agora, apta a aceitar as escolhas de Rubem; compreende-las, porém, coube apenas a ele. 

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