Não posso mais dizer que não
tenho notícias de você. Eu tenho, são boas.
Você está prestes a se formar, pirado com as últimas instâncias da
faculdade. Eu te dei algumas notícias sobre mim também. Os progressos na faculdade,
os desenhos, a exposição na cidade que compartilhamos.
Era o que você esperava saber.
Era o que eu esperava saber. Sabia que daríamos apenas notícias, manchetes um
ano atrasadas – do contrário teríamos que falar de nós dois. Mas eu queria
falar de mim para você, não apenas um egoísmo vago que meu lado setecentista
pede, eu queria te apresentar a minha vida nova.
Eu tenho me cuidado, T. Cuidado
da minha vida, do meu corpo, da minha alma. Tenho cuidado do meu apartamento,
dos meus cactos. Tenho cuidado do meu trabalho e dos meus compromissos. Estou
tentando cuidar das minhas bagunças também, mas sem algumas delas eu não
existo. Eu ainda posso me lembrar de ouvir você dizendo para que eu me cuidasse
na última vez em que nos vimos, há mais de um ano.
Queria te contar das evoluções
dentro de mim. É tão linda e abstrata essa metamorfose adulta. Na maior parte
do tempo, fingimos que ela simplesmente não acontece, que do dia para a noite,
torna-se adulto e responsável, e ignoramos esse organismo vivo que nos
acompanha nos altos e baixos.
Eu não mudei de poetas ou
designers favoritos. Ainda tenho essa imaginação de criança e provavelmente
viverei no mundo da lua para sempre. Mas ainda assim há uma mudança
perceptível, quase palpável. Não falo dos anos, T. Falo das experiências.
Queria que você tivesse ficado
por tempo suficiente para conhecer meu apartamento. Ele é uma extensão de mim. Às
vezes, é através dele que me lembro de quem eu sou, por dentro e por fora. Eu
sempre sonhei em ter um ateliê, hoje em dia ele é sempre bagunçado e sujo de
tinta, mas cada respingo é perfeito.
Passei a tomar chá quente,
descobri recentemente o quanto aquece a alma. Voltei a ler. Voltei a escrever.
Voltei a ilustrar. Estou explodindo de ideias e sonhos. Mas tenho os pés no
chão mais do que nunca. Tenho contas para pagar, um apartamento para
administrar. Eu estou encontrando, devagar, um equilíbrio entre a realidade
dura e cruel e o nirvana dos sonhos. Talvez o segredo seja manter os pés no
chão e a cabeça nas nuvens. Estou aprendendo, T.
Eu estou completa. Estou me
completando, crescendo e aprendendo a cada dia, vivendo um dia de cada vez. Aprendi,
na marra, a gostar da minha própria companhia. Gosto de me levar pra passear,
de me fazer um almoço, de me presentear, de me levar ao cinema. Está sendo um
desafio pessoal bem cumprido desfrutar somente de mim mesma.
Eu não queria te contar tudo isso
para dizer que não preciso mais de você. Aprendi, nesses quase dois anos de
exílio voluntário, que só precisamos realmente de nós mesmos e algo em que
acreditar. Estar com alguém é escolha, é a forma mais pura de demonstrar
liberdade. Queria te dizer que eu estou indo, estou caminhando. Queria te
contar tudo isso para que você continuasse a me conhecer. Queria te apresentar
esse pedaço inédito de mim.
Esse pedaço que firma quando a
vida aperta e ri quando a vida afrouxa.
Pessoalmente, você teria visto
tudo isso em meus olhos. E eu deixaria que você me encarasse até que
assimilasse tudo que era novo; o gosto pelo seu olhar não mudou.
Com amor, sempre,
L.
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