Bittersweet - a carta que é mais de amor do que de despedida
Eu não sei como começar uma carta
de despedida para você. Talvez eu nunca saiba. Isso, porém, já era esperado. Eu
reluto esta escrita há quase um ano, torcendo, rezando para que não precisasse,
para que, no fim das contas, eu estivesse mesmo certa – como minha intuição
tinha me dito.
Eu realmente achei que fosse
você. Também não sei dizer os motivos, só – achava que – sabia. Era tão
absurdamente natural e familiar estar ao seu lado que parecia não ter como ser
errado. Mas foi, de alguma forma, errado para você.
E eu ainda não quero escrever
esta carta – embora precise. Ainda assim, quero fingir que não preciso.
Você escapou pelos meus dedos e eu não percebi. Isso dificulta tudo. Todas as outras vezes em que eu precisei escrever cartas – nunca entregues – de despedida era movida por uma briga, um adeus genuíno, uma promessa esquecida.
De você, não tive nada. Você usou
meus mistérios a seu favor e escapou à francesa no meu melhor estilo. Talvez
seja simplesmente a vida me devolvendo o que eu costumava fazer. Eu sempre fui boa em desaparecer; nos meus
casos, era sempre depois de um término. O nosso término, entretanto, foi a sua
escapada.
Dizer que eu nunca mais ouvi de
você seria mentira. Eu soube, coisas esparsas, durante pouco tempo depois que
você desapareceu. Você foi embora sem nunca dar adeus, você não me escolheu,
não tentou e ainda assim não foram as piores coisas que você podia fazer comigo
– na época, acreditei que fossem.
Mesmo me trocando pela sua atual,
e ironicamente parecida comigo, garota, a pior coisa que você podia ter feito a
mim era se excluir totalmente da minha vida, sumir como se você nunca tivesse
estado por aqui, como se não tivesse cantado Something para mim e como se nosso pequeno conto agridoce nunca
tivesse existido.
A pior coisa que você fez a mim
foi desaparecer.
Eu gostava de ter esse pouco
acesso a você, me perdoe. Pode ser uma frase batida, mas precisava saber se você
estava bem – mesmo que bem longe de mim. Queria entender. Queria que você
tivesse me dado adeus e um beijo de despedida sobre o qual eu pudesse escrever.
Mas você não me deu. Nem um beijo
de despedida nem uma daquelas polaroids que tiramos num dia calmo e distante. Eu
me pergunto se você as jogou fora; a afirmativa é repetida na minha mente,
mesmo sabendo que eu as guardaria talvez para sempre.
Eu quis acreditar que o que nos
unia era maior que tudo, um daqueles laços invisíveis do universo que insistem
em ligar duas pessoas. Que você voltaria. Que nos encontraríamos de novo.
Cá estou eu, todavia, tentando
escrever uma carta de despedida onde não houve adeus. Nem esse luxo você me
deu. Gostaria de escrever sobre um adeus, porém escrevo agora sobre mistério e
possibilidades.
Queria que aquele texto que
escrevi sobre seu futuro – antes mesmo de amar você – acabasse sendo o meu
maior engano. Que sua noiva perfeita com alianças de diamantes e paredes
brancas não existissem. Acho que meu pior engano foi acreditar em nós.
Infelizmente.
Infelizmente, de todo meu
coração.
Existe uma coisa, entretanto, que
você não pode tirar de mim. Essa sua linda tatuagem no pulso esquerdo indicando
o Norte. Você a fez bem jovem, quando nem sonhava em me conhecer; fez numa
viagem a esta linda e pacífica ilha do Atlântico Sul – onde eu agora moro e a responsável
geograficamente pela nossa separação.
Você vai olhá-la e se lembrar de
mim.
Mesmo se sua noiva impecável se
concretizar.
Gosto de pensar que acabei sendo
seu true North. E gosto de pensar que
é para lá que as pessoas acabam sempre voltando.
-Com amor, sempre, L.
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