Devaneios
Cartas de amor são ridículas
Acabo de ler
um poema de Pessoa; de Fernando Pessoa. Aquele que diz que cartas de amor são
ridículas. E diz também que ridículas são as pessoas que nunca escreveram uma
carta de amor.
Lindo poema.
Adoro o Pessoa.
Parei,
portanto para pensar. Nunca escrevi cartas de amor. Nunca pendi a esse ponto do
ridículo. Já me expus a vários, vários outros; desnecessários até. Nem quando
criança, leitor, se você quer saber. Tive um namoradinho de jardim de infância,
e Harry Potter.
Minhas paixões
infantis foram sempre sóbrias e atentas quando se tratava de crianças da minha
idade. Meu coração, naquela época, pertencia de verdade à personagens de
livros, filmes e desenhos animados. Me conquistaram mais fácil que as outras
crianças.
Escreverei, então,
minha primeira carta de amor. E dedico a você.
Ao amor,
enfim.
Meu você não é referido a uma paixão
específica, passageira ou duradora. Meu você
é ao amor. Ao meu amor, que vi refletido tantas vezes em tantas coisas
diferentes. Refletido em pessoas, coisas, lembranças, sentimentos.
Peço perdão
aos meninos pelos quais me apaixonei, mas eu sou apaixonada por coisas demais para
dedicar uma carta de amor aos rapazes, inda mais a apenas um. Nunca chegaram,
nem chegarão a receber uma carta vinda de mim. Uma carta contaria coisas
demais.
Seguindo os
conselhos de Pessoa, serei então ridícula. Dedicarei também a carta à
tempestade, mãe ligeira da chuva e do vento, por quem sempre fui encantada.
Medo me causa ainda hoje, quando assobia lá fora e leva tudo a sua volta.
Dedico à
música e ao pensamento. Ao poder de sentir e falar. Às artes e às cores. Aos
meus infinitos amores, terrenos ou não. À tudo que me encantou, uma carta de
amor. Dedico à coisa mais ridícula que posso imaginar de momento: eu mesma.
Me dedico. É,
assim, a única maneira que encontro de escrever uma carta verdadeira, a mando e
orientação de Fernando Pessoa. Querido Pessoa, me dedico também à ele, que me
inspirou por esta noite.
E me dedico a
muitos outros poetas, que me inspiraram em outras noites. E outras noites, que
inspiraram outros poetas.
Nada
romântica, é assim que a fiz. Cheia de afeto, porém. Aqui jaz minha primeira
carta de amor.
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