segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Devaneios - Cartas de amor são ridículas

Devaneios
Cartas de amor são ridículas

Acabo de ler um poema de Pessoa; de Fernando Pessoa. Aquele que diz que cartas de amor são ridículas. E diz também que ridículas são as pessoas que nunca escreveram uma carta de amor.
Lindo poema. Adoro o Pessoa.
Parei, portanto para pensar. Nunca escrevi cartas de amor. Nunca pendi a esse ponto do ridículo. Já me expus a vários, vários outros; desnecessários até. Nem quando criança, leitor, se você quer saber. Tive um namoradinho de jardim de infância, e Harry Potter.
Minhas paixões infantis foram sempre sóbrias e atentas quando se tratava de crianças da minha idade. Meu coração, naquela época, pertencia de verdade à personagens de livros, filmes e desenhos animados. Me conquistaram mais fácil que as outras crianças.
Escreverei, então, minha primeira carta de amor. E dedico a você.
Ao amor, enfim.
Meu você não é referido a uma paixão específica, passageira ou duradora. Meu você é ao amor. Ao meu amor, que vi refletido tantas vezes em tantas coisas diferentes. Refletido em pessoas, coisas, lembranças, sentimentos.
Peço perdão aos meninos pelos quais me apaixonei, mas eu sou apaixonada por coisas demais para dedicar uma carta de amor aos rapazes, inda mais a apenas um. Nunca chegaram, nem chegarão a receber uma carta vinda de mim. Uma carta contaria coisas demais.
Seguindo os conselhos de Pessoa, serei então ridícula. Dedicarei também a carta à tempestade, mãe ligeira da chuva e do vento, por quem sempre fui encantada. Medo me causa ainda hoje, quando assobia lá fora e leva tudo a sua volta.
Dedico à música e ao pensamento. Ao poder de sentir e falar. Às artes e às cores. Aos meus infinitos amores, terrenos ou não. À tudo que me encantou, uma carta de amor. Dedico à coisa mais ridícula que posso imaginar de momento: eu mesma.
Me dedico. É, assim, a única maneira que encontro de escrever uma carta verdadeira, a mando e orientação de Fernando Pessoa. Querido Pessoa, me dedico também à ele, que me inspirou por esta noite.
E me dedico a muitos outros poetas, que me inspiraram em outras noites. E outras noites, que inspiraram outros poetas.
Nada romântica, é assim que a fiz. Cheia de afeto, porém. Aqui jaz minha primeira carta de amor.


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